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Os desajustados promovendo ajustes

Antes de escrever esse artigo, queria achar exemplos de descobertas ou métodos científicos criados por pessoas comuns, que não eram cientistas renomados ou engenheiros reconhecidos e bem remunerados. E, por incrível que pareça, foi uma tarefa bem fácil. Abaixo somente alguns exemplos:

A medida de longitude no oceano foi criada por um carpinteiro, nos idos do século XVIII, que inicialmente foi descreditado pela comunidade científica.

O chamado pai da genética moderna era um pesquisador de ervilhas, que teve seu trabalho ignorado inicialmente por aqueles que eram considerados os melhores cientistas da área na época.

No começo dos anos 80, Berry Marshall, patologista desconhecido, decidiu ingerir a bactéria espiral para comprovar sua teoria, de que esse tipo de bactéria podia causar úlcera estomacal. Teve que esperar mais de 20 anos para que a comunidade científica admitisse que ele tinha razão.

Para encurtar a história, é fácil obter exemplos de ideias ousadas vindas de quem menos se espera, rejeitadas a princípio, mas que no final se comprovam como corretas ou realistas. Um comercial antigo, famoso, fala de um tipo de pessoa que não ‘respeita o status quo’, que ‘não gosta de regras’, que é ‘louca’, mas que no final são os que realmente promovem mudança no mundo. E esses caras aí de cima se encaixam bem nessa descrição.

Um outro exemplo desse tipo de advento são as metodologias ágeis. Quando falamos de software, é tudo muito novo comparado a outras engenharias. Mas até pouco tempo atrás, quantias enormes de dinheiro eram perdidas por que software sempre atrasava, estourava orçamento e era amaldiçoado de problemas. Todo mundo via os desenvolvedores como culpados. Eles trabalhavam duro, noites, fins de semana, e é fácil achar exemplos de divórcios dessa época envolvendo desenvolvedores, mas nada disso mudava a situação da engenharia de software.

Então esses caras decidiram inventar — e de certa forma descobrir — uma forma de gerenciar o desenvolvimento de software de forma sistemática permitindo inovação contínua. Assim como os exemplos do começo desse artigo, seria fácil apontar para eles e dizer que não eram as pessoas certas para tentar revolucionar os métodos aplicados na época, afinal também existiam acadêmicos renomados e gerentes cujo papel era, bem, gerenciar o desenvolvimento de software. Mas coube aos geeks, aqueles que todo mundo fala que se vestem mal, que são antipáticos e que criticam os padrões sociais, criar um método sustentável para esse grande problema do nosso tempo.

Mas, afinal, o que eles fizeram? Existem toneladas de artigos sobre metodologias ágeis, e nesse mês, a seção do espaço cliente vai abordar um pouco disso, mas vou resumir aqui para estender um pouco o contexto. O que ocorre é que, nos primórdios, gerenciar o desenvolvimento de software tinha que se basear em algum campo dominado já pelo conhecimento humano, então por que não usar uma abordagem que funciona bem em outra área, como na indústria? Existem requisitos, faz-se um projeto para atender esses requisitos, organiza-se uma linha de produção, e ok, liga para o cliente que vamos entregar em seguida. (Eu sei que não é tão simples, mas vocês pegaram a ideia.) E sério: esse design up-front é ótimo — se você consegue reunir todos os requisitos no começo e eles não mudam, é muito eficiente. Prova disso é que funciona muito bem nas mais diversas indústrias — da automobilística à têxtil. No entanto, quando falamos de software, com requisitos que mudam constantemente, esse  grupo percebeu que é preciso adotar uma abordagem iterativa, em que se trabalha em colaboração contínua com o cliente, e que sempre que algum requisito muda é bem acolhido para promover a vantagem competitiva do cliente. É priorizado o que traz mais valor para o cliente, restringindo o foco da equipe ao que realmente importa para o cliente naquele momento.

Mesmo nas áreas em que os requisitos são estáveis e bem definidos, há quem defenda que essa abordagem iterativa traga benefícios. E realmente tenho a impressão que alguns desses princípios presentes na chamada cultura ágil começam a vazar para outras outras áreas do nosso cotidiano. Noutro dia comprei um e-book inacabado, pois o autor estava aplicando as metodologias ágeis na escrita de sua obra. Assim ele podia receber o feedback dos primeiros clientes e trabalhar em eventuais correções enquanto avança nos próximos capítulos. Sempre que ele libera algo novo, atualizo o livro e dou uma olhada, envio sugestões e aviso se acredito que algo não está correto.

Esta metodologia “ágil”, além de nos permitir chegar a objetivos que realmente agreguem valores ao cliente, nos deixa oportunidade de evoluir. Podendo evoluir como pessoas, adquirir novos conhecimentos por meios das interações que podem ser vividas, entre a equipe, e entre nós e os nossos clientes. E o mais importante, teremos sempre equipes com indivíduos responsáveis com suas atividades, já que quem perde a partida é o time, não o jogador.

Para concluir, pode soar como um discurso meio utópico, mas talvez o mundo possa ser mais ágil. Ter essa intenção de descomplicar processos, de promover a colaboração entre as partes, de priorizar o que traz mais valor, sempre é possível e na maioria das vezes necessária. Como vimos, talvez essas mudanças de pensamento não surjam daqueles que todos esperam, por isso é sempre bom estar atento.

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